quinta-feira, 11 de novembro de 2010

O Machão Latino-Americano, parte 2

O conversê da cidade tomou um novo rumo com a façanha do machão latino-americano. Com a mesma volúpia de sempre, ele parte para a caça. Ao contrário do que pensam os nobres leitores, o machão Latino-Americano é um homem que o campo de caça é irrestrito, em qualquer lugar pode ter um acontecimento - e uma sortuda para contar a história.
E o lugar é o mais impróprio para a caça: a santa igreja católica. Afinal, o machão latino-americano é um homem preso as tradições. Esse machão entra sorrateiramente na Igreja, no intuito de não chamar a atenção do mulheril. Obviamente a sua tentativa é um fracasso, pois elas sentem o cheiro forte de ferormônio que exalava de seu corpo. Era tanto que arrepiou a viuva. Essa viuva de tez pálida, com o rosário semi-contado na mão, avisando que naquela hora iria ter o início da fatídica Salve Rainha. "A oração mais importante do terço", segundo ela. Rezava pela morte do seu marido, um competente bancário, que não lhe faltava nada. A saudade lhe consumia a alma. Porém o cheiro nobre do Kayak misturado ao suor do dia de calor intenso que se fazia na cidade, fez com que a viuva sentisse uma sensação que consumia seu corpo em desejo proibido. Será que meu velho maridinho encarnou? Será que ele está aqui comigo? O cérebro e a alma processavam milhares de informações por segundo, mexendo com a cabeça dessa mulher, que estava em outra dimensão. Este odor torna mais intenso, mais vívido, mais dominador. Ela não controla sua salivação, toma um gole úmido e vê seu coração a um batimento tão intenso quanto a realização da sua primeira vez, no fundo dessa mesma igreja, na adolescência, quando conheceu seu finado marido. Os passos começaram a se apertar em direção da viuva, que tremia baixinho, para não acordar os santos. O machão sabia que a situação estava sobre controle. Ele sabia do dom poderoso que Deus lhe deu, de conquistar a mulher que quiser. Seu cheiro, seu domínio, seu traquejo, sua malandragem tomaram-na em desejo sexual. Ela pensava apenas em prazer, depois de tanto tempo sem sentir isso, depois de suportar a dor do marido, que morria aos poucos devido a maldita doença. Ela voltou a sorrir maliciosamente. A sorrir por um homem que era longe o mais intenso, o mais vívido, o mais forte amante que ela queria ter. Abraçou sem pestanejar, como se conhecesse aquele abraço de braços peludos e corpo suado do sol. Levantou e sentiu no meio das pernas a razão que movia o machão latino-americano a dotar de tamanha vitalidade, e sentiu-se rejuvenecida uns 15 anos. E este homem a possuiu, no momento que ela iria rezar o pai nosso. O beijo dentro da igreja, com tons de proibição, de pecado, de crime, era mais doce e mais intenso do que os ritos que fazia na epoca que era casada. Aquele beijo molhado, no roçar da barba mal-feita do machão com seus lábios úmidos de desejo, com um leve gosto de cachaça inebriante. Era o sentido da vida que fazia sentido de novo. O beijo longo, poderoso, tornou mais intenso quando o machão tirou-a da igreja e levou-na para a casa dela, no seu possante Ford Fiesta. Eles entraram, e ela descobriu que o sofrimento pelo enfermo marido era inútil, pois não tinha o amado da forma intensa do machão lhe amou.
Depois de duas horas, ele sai pela porta do quarto, pega sua camiseta floral e deixa-na sozinha, no arrependimento católico que voltou a dominar seu corpo. Parecia uma ex-drogada que tinha voltado ao vício. Quando se deu conta, não tinha nenhum telefone, nenhum contato, nenhuma forma de chamar ele para seu convívio novamente. E ela nunca mais o viu novamente.

O primeiro gol

Era um sábado de manhã, 11:30 de um sábado de inverno, não frio de rachar, nem quente de torrar. Era um dia com clima especial, o mesmo clima que se deve ter para bebericar uma champagne francesa ou jogar bola. Os digníssimos camaradas resolveram jogar bola. Reuniram no Centro Desportivo Paula Ramos 14 bravos peladeiros que honravam escudos de seus times, no misto de fantasia e de realidade. E os dois escretes definiram seus posicionamentos:
- Ele vai pro gol, o Lidnei é bom na lateral, o Mauri é bom em roubar bolas, o Mateus não volta, deixa no ataque, o Fábio não sobe, e se sobe não volta, e o Luis faz bem a transição meio de campo, o box-to-box.
- Hein, que merda é essa de box-to-box, é aquela coisa que tua mulher fez pra ficar esticada?
- Não fala merda, vamos escolher aqui. O guri colorado é bom, vai jogar na lateral esquerda, o Lenoir fica na zaga.
Depois das habituais brincadeiras e mudanças de esquemas táticos do futebol de 11 adaptados ao futebol de 6, começa, no meio da desorganização, a partida. Uma partida de futebol envolve elementos culturais acima da civilização burguesa, como as faltas que são cedidas sem stress, os laterais que valem mais do que uma bola na mão, e os gols que são fabricados à escala industrial. O placar estava 2 a 0 em meros 10 minutos de jogo quando paramos no tempo para explicar a jogada do primeiro gol do Fábio:
- O Fábio estava desmarcado na lateral esquerda, fora de posicionamento.
- O Lidnei, franzino, pega a bola e domina livre.
- A marcação do time adversário deixa uma avenida Paulinho para ele flutuar livremente.
- O Lenoir fica parado, rindo em silêncio de suas histórias de pescador.
- O Goleiro Luis, que estava de improviso, observa atentamente a trama de Lidnei com a bola
- Ninguém dá bola para o Fábio - a natureza cuida.
- A zaga não dá combate.
- As laterais não dão combate.
- Fábio corre. Fábio correr é uma aversão à teoria do espaço-tempo de Einstein, que diz que os corpos de grande massa, em processo de explosão, seriam facilmente detectados pelos homens. Mas ninguem viu a sua subida.
- Poucos metros do gol, Lidnei percebe que um vulto de colete verde corre na direção contrária ao gol, com faro de gol jamais visto.
- A bonita jogada de Lidnei poderia render-lhe um gol histórico, uma placa. Mas vê o lutador Fábio, que nunca adquiriu o sabor de um gol saindo de sua perna direita. A cena é de cinema, no final do filme, ao invés do beijo da noiva, ou da morte do senhor do Mal, teve um momento que faz os homens refletir a condição humana. Lidnei passa a bola e justifica a alcunha do time pela solidariedade com os companheiros de time.
- Fábio, de gol aberto, o coração a mil, o cansaço a 2 mil, posiciona seu pé de apoio a poucos metros do gol e empurra a bola branca para o fundo da caixinha. A explosão do sentimento de alegria, pelo primeiro gol da carreira, faz Fábio comemorar o gol como se fosse uma criança que acabara de ganhar um playstation 2 no Natal. Ta-lá, no fundo da rede, pensava ele.
A felicidade foi tamanha que ele largou o jogo e foi preparar o churrasco.

O Machão Latino-Americano

Tem homens que são diferentes dos demais pelo dom mágico da conquista. Esses são os chamados de machões latino-americanos. Um machão latino-americano não é um que tu encontra ai, perdido na rua ou na fila do Banco na hora do almoço. Esse homem com dotes acima do normal promove nos homens a mais vil inveja e nas mulheres a sensação de quem as ama profundamente, todas elas.
Como se traja tal homem? Essa é a parte fácil: camisa social floreada aberta 10 centímetros acima do umbigo, calça jeans apertada, para valorizar o material e sapato de couro ou de camurça, para dar um toque chique. Não podemos esquecer que é um homem de correntes douradas e óculos raiban típico dos tiras norte-americanos. O perfume é Kayak, numa rara aceitação aos modernismos atuais. O penteado é simples, um mullet da sagrada época dos anos 70, somado a isso a barba por fazer e o bigodão sensual.
Na primeira vista, os homens não dão bola para esse sujeito, que parece perdido em seu tempo. Mas quando este sujeito adentra no espaço, há uma completa mudança de paradigma. As mulheres olham-se a todo instante, para ver quem será a sortuda, quem se debruçará na barriga com a suave saliencia de fofura e a falsa impressão de forma física deste portentoso machão latino-americano.
Este homem não tem pudor em escolher quem será sua parceira. Escolhe a primeira mulher do sorriso mais doce, da tez mais delicada e do corpo mais ardente, mesmo que visualmente seja recatada. Não chega nela com piada pronta, ou cantada falha. Ele sabe o que precisa fazer para roubar-lhe a recatidão e dar-lhe a perfeita sintonia da vida em seus braços. É um homem de poucas, mas decisivas palavras, que tangem o intelecto da jovem de ideais, que a faz virgem de um sentimento que ainda não reconhecera. O machão latino-americano toca-a como nunca será tocada por homem algum. Ela sente o cheiro de machão exalando eu seu corpo e umidifica-se os lábios e os poros de seu corpo. O beijo não tarda a acontecer. E ela sabe que é o melhor beijo da sua vida, mas que vai ser um momento raro. Ele se despede dela, vai curtir a noite vencedora, e ela fica aos prantos, dizendo que a noite e a sua vida acabaram ali, naquela despedida.
Outras mulheres do recinto comemoram o desprezo do machão pela jovem donzela. "O que ela não tem que eu tenho?", pensam as madames do salão, cada uma com seu aroma, seu cheiro e sua vitalidade a mostra, ou quase a mostra. Este homem escolhe bem a segunda mulher, que não é tão singela quanto a primeira. Pra falar a verdade, não é nada de especial. O murmúrio toma conta do salão lotado. Pensamentos como "Aquela ali, uma puta", "Vagabunda". "Vadia" ecoam nos pensamentos quase homogêneos da mulherada. O Machão não dá bola para aquilo, pois ele sabe que é único na festa. E sem delongas, um beijo longo na "feiosa". Depois do beijo, ele convida-a a caminhar junto dele. Ele a leva para a jovem donzela. A jovem que tinha todos os motivos para odiá-lo, mas é flagrada sorrindo aos montes, vendo o príncipe voltando, agora acompanhado. Ninguem ouve a conversa, mas há uma concordância nos gestos que fazem o trio sair da festa. Naquele momento, uma penumbra ronda o salão, deixando o ambiente frio, distante, morto. O baile acabou, só faltou dizer o vocalista da banda. Todos foram para a casa, parecendo o final de um enterro.