Tem homens que são diferentes dos demais pelo dom mágico da conquista. Esses são os chamados de machões latino-americanos. Um machão latino-americano não é um que tu encontra ai, perdido na rua ou na fila do Banco na hora do almoço. Esse homem com dotes acima do normal promove nos homens a mais vil inveja e nas mulheres a sensação de quem as ama profundamente, todas elas.
Como se traja tal homem? Essa é a parte fácil: camisa social floreada aberta 10 centímetros acima do umbigo, calça jeans apertada, para valorizar o material e sapato de couro ou de camurça, para dar um toque chique. Não podemos esquecer que é um homem de correntes douradas e óculos raiban típico dos tiras norte-americanos. O perfume é Kayak, numa rara aceitação aos modernismos atuais. O penteado é simples, um mullet da sagrada época dos anos 70, somado a isso a barba por fazer e o bigodão sensual.
Na primeira vista, os homens não dão bola para esse sujeito, que parece perdido em seu tempo. Mas quando este sujeito adentra no espaço, há uma completa mudança de paradigma. As mulheres olham-se a todo instante, para ver quem será a sortuda, quem se debruçará na barriga com a suave saliencia de fofura e a falsa impressão de forma física deste portentoso machão latino-americano. Este homem não tem pudor em escolher quem será sua parceira. Escolhe a primeira mulher do sorriso mais doce, da tez mais delicada e do corpo mais ardente, mesmo que visualmente seja recatada. Não chega nela com piada pronta, ou cantada falha. Ele sabe o que precisa fazer para roubar-lhe a recatidão e dar-lhe a perfeita sintonia da vida em seus braços. É um homem de poucas, mas decisivas palavras, que tangem o intelecto da jovem de ideais, que a faz virgem de um sentimento que ainda não reconhecera. O machão latino-americano toca-a como nunca será tocada por homem algum. Ela sente o cheiro de machão exalando eu seu corpo e umidifica-se os lábios e os poros de seu corpo. O beijo não tarda a acontecer. E ela sabe que é o melhor beijo da sua vida, mas que vai ser um momento raro. Ele se despede dela, vai curtir a noite vencedora, e ela fica aos prantos, dizendo que a noite e a sua vida acabaram ali, naquela despedida.
Outras mulheres do recinto comemoram o desprezo do machão pela jovem donzela. "O que ela não tem que eu tenho?", pensam as madames do salão, cada uma com seu aroma, seu cheiro e sua vitalidade a mostra, ou quase a mostra. Este homem escolhe bem a segunda mulher, que não é tão singela quanto a primeira. Pra falar a verdade, não é nada de especial. O murmúrio toma conta do salão lotado. Pensamentos como "Aquela ali, uma puta", "Vagabunda". "Vadia" ecoam nos pensamentos quase homogêneos da mulherada. O Machão não dá bola para aquilo, pois ele sabe que é único na festa. E sem delongas, um beijo longo na "feiosa". Depois do beijo, ele convida-a a caminhar junto dele. Ele a leva para a jovem donzela. A jovem que tinha todos os motivos para odiá-lo, mas é flagrada sorrindo aos montes, vendo o príncipe voltando, agora acompanhado. Ninguem ouve a conversa, mas há uma concordância nos gestos que fazem o trio sair da festa. Naquele momento, uma penumbra ronda o salão, deixando o ambiente frio, distante, morto. O baile acabou, só faltou dizer o vocalista da banda. Todos foram para a casa, parecendo o final de um enterro.
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